A vida tem suas encruzilhadas...
Numa dessas encruzilhadas encontramos o Odorico, há quase um ano, ainda filhote, faminto e magricela.
Tivemos vontade de trazê-lo para o aconchego da nossa casa. Por artimanha do destino, não trouxemos. Ele ganhou, lá mesmo em São Pedro, um terreno baldio que lhe serviu de abrigo e uma dose de ração por dia, gentileza do Dr Iraídes.
Odorico foi crescendo, crescendo... E a gente acompanhou o filhote faminto virar um gatão que nunca esqueceu da gente, principalmente do Pedro.
"Foi o macarrão com lentilha que eu dei para ele, mamãe. Ele nunca mais esqueceu de mim".
Com certeza filho. Era chegar em São Pedro, pegar uma comidinha especial e chamar Odorico, Odoriqueiro, lá vem ele, rabo alto, miadinhos curtos, correndinho como um cachorrinho.
Outra artimanha do destino. Dr Iraídes, há duas semanas, nos deu a notícia de que estava de mudança. Infelizmente Schneider, vugo Odorico, ou Odorico, Schneider dele, teria que ficar. Pouco espaço na vida nova do Dr para abrigar Odorico no terreno ao lado, pois terreno não existiria na casa nova. É pena, que pena, ficaria feliz se vocês pudessem ficar com ele. Um gatinho especial, que passou maus bocados e sobreviveu. Dr Iraídes não precisou muito e nos convenceu... Ele não sabia, mas nos sentíamos responsáveis por aquele gatinho da esquina, que na esquina teria ficado e da esquina não teria passado ou sequer sobrevivido não fosse pelo tamanho enorme do coraçãozinho de um certo menino, devoto de São Francisco de Assis, amiguinho de todos os animais.
Era sábado de carnaval. Munidos de decisão, muito amor e um cartão de crédito, fomos à veterinária. Odorico vacinou. Vermifugou. Castrou. Sua nova vida, pouco ou quase nada estranhou. Em Laranjeiras ainda é um recém chegado, mas a imensidão de nosso dois quartos já começou a desbravar. Escolheu uma poltrona para dormir, pança cheia, coração aquecido de amor.
Quando se perde de mim, dá miados que vão aumentando de volume até me achar. Se saio, acompanho seus agudos subirem uma oitava e elevarem ao volume máximo. Pára logo que saio da portaria, mas ainda assim saio torcendo para que perceba que toda saída tem uma volta agora que sua casa não é mais na imesidão solitária do terreno baldio.
Pedro volta domingo para encher seu pote de mais carinho ainda, amiguinho Odorico, gatinho que leva no nome o Dodô e o Tio Rico, copia o Dantès nas cores, tem a gula do tamanho da da mamãe, faz chamegos esfregadinhos como os do Pedro, "afortou" no papai a lembrança de seus gatinhos da infância, gosta de brincar mordiscando como o Freud, e teve a sorte de ganhar duas vovós que são caidinhas por felinos... Duas, de uma só vez.
Eu vivo jogando na loteria e o gatinho aqui do meu lado é que tirou a sorte grande... Mais uma artimanha do destino...
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